Odeio sorvete de pistache

Odeio sorvete de pistache. Sério, o gosto é muito ruim. É nojento, repugnante, repulsivo. Ninguém deveria comer isso. Aliás, não deveria nem mesmo existir o direito de alguém comer uma coisa ruim dessas. Devia ter uma lei proibindo.

Já começa que o sorvete é verde. O único sorvete verde aceitável é o de limão, e olhe lá.

Aí vem o gosto. Cara, o gosto é inaceitável. É terrível. Uma pessoa que goste de sorvete de pistache só pode ter algum problema mental; deveria ser tratada para corrigir esse desvio de comportamento.

Se eu tivesse uma sorveteria, jamais faria o de pistache. Além disso, tentaria convencer a todos que o sorvete de pistache é um erro! É um desperdício de matéria prima! O sorvete é feito para ser gostoso, ou seja, tudo aquilo que o sorvete de pistache não é. Fabricar sorvete de pistache é um erro, e deve ser corrigido.

Inclusive, realmente creio que deveríamos instituir uma lei proibindo a fabricação e consumo do sorvete de pistache. Precisamos de um meio legal de impedir essa coisa horrenda. Isso, façamos uma lei. E, adicionalmente, vamos prover tratamento psicológico (talvez psiquiátrico) a quem gosta de sorvete de pistache; é anormal. É um desvio. Isso vai destruir a nossa sociedade. No âmbito sorvetístico, claro.


O quão ridícula é essa história que contei aí em cima?

Toda ela é.

De fato, a única verdade contida nela é minha real repulsa pelo sorvete de pistache. Gosto pessoal meu. Não gosto desse sabor.

Contudo, minha repulsa ao sorvete de pistache jamais justificaria revoltar-me contra quem goste de tal sabor. Não há lógica em querer proibir as demais pessoas de comer esse sorvete só porque eu acho horrível. É assim que essas pessoas são. Não escolheram gostar do sorvete de pistache; só ocorre que gostam.

Elas podem não gostar do de flocos. Eu amo. É o meu favorito. Contudo, se alguém não gostar do de flocos, não me impedem de saboreá-lo. Não há razão para que essa pessoa hipotética faça algo que me impeça de comer o sorvete de flocos. Não escolhi gostar do sorvete de flocos; eu só gosto dele, pronto.

Suponhamos que você seja uma pessoa que goste do sorvete de pistache. Só para o exemplo.

O principal motivo pelo qual não faço nada contra o sorvete de pistache (ou contra você, por apreciá-lo) é: a minha vida não muda em nada por você gostar e comer o sorvete de pistache; o sorvete de pistache não influencia em nada a minha vida. Se você come este sorvete, minha vida não se altera em nada. Isso não tem nada a ver comigo. Não me atrapalha, não me ajuda, não me escandaliza.

Logo, não há razão lógica para que eu lhe impeça de saborear o seu sorvete de pistache.

Ainda, tem a empatia: assim como não tem um porquê de eu impedir o seu pistache, não ha motivo de você impedir o meu flocos. Afinal, é uma via de mão dupla aqui.

Você tem o direito de comer o seu pistache. Eu tenho o direito de comer o meu flocos.

Você tem o direito de ACHAR que comer o de flocos é um erro. Eu tenho o direito de ACHAR que comer pistache é um erro.

Você NÃO tem o direito de impedir meu flocos. Eu NÃO tenho o direito de impedir seu pistache. Por que? Porque o seu pistache não me influencia em nada, não tira nenhum direito meu, nem cerceia minha liberdade, nem me põe obrigações. O oposto (meu flocos) também é verdadeiro.

Então, minha gente, por que raios deveríamos impedir a união civil homoafetiva (popularmente casamento gay civil)? A fórmula é a mesma.

Está mais do que na hora de garantir esse direito a tantos e tantas que há tanto esperam para desfrutá-lo.

A união civil homoafetiva não interfere em coisa alguma na vida daqueles que não são homoafetivos! Ninguém é obrigado a gostar ou a exaltar! Assim como ninguém é obrigado a gostar ou a exaltar as uniões heteroafetivas!

Ainda: os homoafetivos não querem convencer ninguém a virar gay junto com eles. Eles querem é que eles, entre eles, possam se unir e ter seus direitos reconhecidos!

Pessoas, se coloquem nos sapatos umas das outras!

Não entendeu? Explico no popular: dois caras ou duas minas se casando no civil não interferem em nada na sua vida! Ou na minha! Ou na de quem quer que seja! Só na deles! Por que um homem e uma mulher podem reconhecer união no civil, e dois “iguais” não? Não há argumento lógico!

Não me venha com o argumento: dois iguais não reproduzem. Explico.

Primeiro, isso é uma obviedade científica. Todo mundo sabe disso. Além disso, tem muitos “não-iguais” por aí que também não reproduzem, e por opção! Tão aí os comprimidinhos e saquinhos de borracha para provar.

Segundo, a perpetuação da espécie não está ameaçada por pessoas do mesmo sexo poderem assinar um papel. Vão continuar existindo tantos heterossexuais quanto hoje, tão aí eles pra garantir esse precioso papel da mãe natureza. (Ainda, sem contar os vários casais homoafetivos que são melhores pais adotivos que muito hetero biológico por aí.)

Terceiro: que raios perpetuação de espécie tem a ver com o direito de união civil de um casal?

Também não use o argumento de que é nojento. Mais nojenta é sua falta de empatia. Não é porque um casal é homoafetivo que vai sair se pegando pela rua. Aliás, vejo mais casais hetero do que homo se pegando pelas ruas exageradamente. Onde está o nojo agora?

E o argumento final: Deus odeia e condena essa gente, e vão todos para o inferno!

Sobre este, eu falarei em outra ocasião, com mais detalhes, em outros posts, porque dá pano para manga. Mas vou deixar aqui frases para reflexão que resumem minha resposta para o argumento divino:

Fui criado a minha vida toda em lar cristão protestante (metodista, mais especificamente). Ainda me julgo Cristão, só que um esclarecido. Só fui ter certeza plena de minha fé após questioná-la. Assim, pude aprimorá-la e ter argumentos minimamente convincentes para mim mesmo (quiçá para os outros). A fé cega é extremamente prejudicial. É um erro considerar a Bíblia como palavra direta da boca de Deus. A Bíblia foi escrita por homens, para homens, e influenciada por contextos históricos, geográficos e políticos ao longo de séculos. Foi copiada diversas vezes, traduzida, retraduzida, logo, incoerências ou incorreções são normais. Estude e vai ver que isso é verdade. Leia a respeito. As igrejas não podem negar isso oficialmente pois é a verdade. Jesus Cristo pregou amor, compaixão e tolerância. Ele sim deve servir de espelho. Os apóstolos eram boa gente, mas eram gente como a gente; também tinham suas opiniões pessoais (e influenciadas pelo ambiente e sociedade em que viviam) e que em nada se ligavam àquilo que Jesus Cristo falou. Leia a Bíblia com atenção e sem medo de questionar a si próprio. Os gays não querem obrigar as igrejas a casar gays. Parem de paranóia. Querem é casar no CIVIL.

Se eu consegui fazer você pensar pelo menos um pouquinho a respeito, já valeu a pena.

Ninguém é obrigado a concordar com ninguém, mas tenha respeito.

Tenha empatia. Se coloque no lugar dos outros. Trate os outros como gostaria de ser tratado. São regras básicas de convivência.

Publicado por

Jerônimo Fagundes da Silva

Oi, eu sou o Jerônimo. :-D Desde 2004, trabalho com desenvolvimento de software voltado à web. Nesse período, trabalhei com diferentes tecnologias, e sempre voltado à web: HTML, JavaScript, CSS, PHP, MySQL, C, PostgreSQL, e ainda outras que não estou lembrando agora. Atualmente, moro em Canoas-RS-Brasil e trabalho como Líder de Desenvolvimento na KingHost em Porto Alegre-RS-Brasil.