O dilema da privacidade

Quase todos utilizamos de diversos serviços gratuitos: e-mail, mensageiro instantâneo, redes sociais, armazenamento de fotos, e muitos outros (vide GMail, Outlook.com, Google Photos, Onedrive, Google Drive, iCloud, Facebook, Whatsapp, etc). Todavia, é sabido que a gratuidade destes sistemas é falsa, pois, apesar de não dispendermos de dinheiro para utilizá-los, cedemos informação. Essa informação é utilizada pelas empresas que fornecem esses serviços “gratuitos” para seu próprio lucro, bem como manutenção de seus serviços.

O Google, por exemplo, pode utilizar toda a informação cedida em buscas, e-mail, etc para traçar um perfil seu, e exibir os melhores anúncios de produtos e serviços, ou seja, os que mais se direcionam ao seu perfil. Os anunciantes, por sua vez, são quem efetivamente pagam ao Google para anunciar seus produtos.

Assim sendo, diversas gigantes do software possuem hoje detalhados perfis de nosso dia a dia, nossas preferência. Google, Microsoft, Apple, Facebook, e muitas outras tem uma infinidade de dados que podem ser utilizados; cada uma dessas empresas tem, geralmente, uma política de privacidade que versa quando e como esses dados serão utilizados.

Todavia, devemos nos preocupar com toda essa informação armazenada nas mãos de um pequeno grupo de empresas?

O argumento da vigilância governamental/de terceiros

Muitos defendem que não devíamos ceder tanta informação em troca de serviços, pois a concentração de dados nas mãos de uma empresa facilitaria a vigilância governamental desses dados. Escândalos recentes dão conta da colaboração entre empresas e governos.

Todavia, outras correntes afirmam que o cidadão usual e não-criminoso não teria nada a temer pela vigilância desses dados, pois, se não cometeu crime, não será punido pelo conteúdo de seus dados.

Entretanto, é válido notar outro argumento: o de que, na eventualidade de ascensão de um regime autoritário, os governos conseguiriam facilmente espionar e perseguir cidadãos de interesse, simplesmente por suas visões políticas.

Ainda, há os que não temem uma vigilância governamental, mas sim que os dados caiam em mãos de pessoas mal-intencionadas. Já ocorreu, e pode ocorrer de novo. Nesse caso, seria conveniente que dados tão pessoais não ficassem expostos da forma como ficam hoje.

O argumento do uso de dados para lucro de terceiros

Há grupos que defendem que o lucro obtido sobre a exploração de dados dos usuários seria espúrio ou desonesto, e que propagandas deveriam ser direcionadas a pessoas sem levar em conta as suas preferâncias. Também, que a manutenção de um perfil traçando a personalidade de cada usuário seria uma invasão à privacidade, pois cada pessoa tem seus segredos, mesmo que não sejam crimes.

Entretanto é útil notar que as propagandas direcionadas não só obtiveram melhores resultados ao longo da história, mas também são melhor toleradas por quem as vê, visto que são produtos que correspondem aos seus interesses.

O argumento da praticidade

Hoje temos diversas ferramentas para (tentar) garantir nossa privacidade online. Há mensageiros instantâneos como o Signal que utilizam o estado-da-arte de segurança de dados para comunicação. Temos o PGP, que nos permite enviar e-mails assinados digitalmente, e até mesmo criptografá-los. Temos complementos de navegador que impedem trackers ao longo da internet.

Todavia, para cada um desses, é necessário algum esforço de instalação e configuração que não são triviais nem para um usuário habituado com tecnologia, logo, imagine para um usuário comum. Além disso, quando é para comunicação, as duas pontas (emissor e receptor) precisam estar utilizando das mesmas tecnologias.

Sendo assim, a maioria dos usuários não utiliza dessas ferramentas, por não serem práticas (out-of-the-box), e elas acabam sendo utilizadas apenas por pequenos grupos que compartilham desses interesses.

Há alternativas sendo criadas e evoluindo, como o ProntonMail, cuja proposta é adicionar os layers de segurança necessários, sem que o usuário comum sequer saiba disso. Mas ainda são embriões, não são perfeitos, e a resistência à mudança é grande.

O argumento da gratuidade

Sabemos que não há almoço grátis. Se o serviço que utilizamos não exige pagamento, ele explorará nossos dados. Alguns defendem que, afim de garantir nossa privacidade, valeria a pena começarmos a pagar para utilizar esses serviços, mediante garantia de privacidade. Outros dizem que preferem ceder a informação e, assim, poder usar seu dinheiro com coisas que lhe tragam outros benefícios.

Afinal, devemos nos preocupar?

Não há resposta universal. Cada um de nós terá de realizar tal julgamento, pessoalmente. Vale a pena arriscarmos dados pessoais em prol de gratuidade e praticidade? Ou devemos investir tempo configurando ferramentas que protegem nossos dados e não são tão práticas? Mas não será um disperdício de tempo? E se as pessoas com as quais nos comunicamos não tem a mesma sintonia, vale a pena investir nessas tecnologia? Mas e se um dia formos chantageados pela informação que colocamos na nuvem?

Nosso perfil somos nós. Cada um de nós terá de ver o quanto vale, e se queremos nos arriscar a uma exposição que, talvez seja danosa, ou talvez nunca traga diferença alguma.

Publicado por

Jerônimo Fagundes da Silva

Oi, eu sou o Jerônimo. :-D Desde 2004, trabalho com desenvolvimento de software voltado à web. Nesse período, trabalhei com diferentes tecnologias, e sempre voltado à web: HTML, JavaScript, CSS, PHP, MySQL, C, PostgreSQL, e ainda outras que não estou lembrando agora. Atualmente, moro em Canoas-RS-Brasil e trabalho como Líder de Desenvolvimento na KingHost em Porto Alegre-RS-Brasil.