A nossa necessidade será a verdadeira criadora

Até dezembro de 2016 eu utilizei um Windows Phone (já com a versão mobile do Windows 10), e o abandonei devido à comodidade, ou a falta dela: um Android era barato o suficiente, e oferecia toda sorte de aplicativos constantemente atualizados provendo os mais variados serviços. Já na loja da Microsoft, aplicativos desatualizados, bugados, e muitas vezes abandonados pelos desenvolvedores.

Recentemente vimos notícias que desanimaram os últimos usuários dessa plataforma: um funcionário de alto escalão da Microsoft, ao ser questionado se era a hora de abandonar o Windows Phone, respondeu não só que a plataforma não vai evoluir, mas que ele próprio já a havia abandonado.

Entretanto, guardo daquela época uma lembrança muito querida: o esforço de desenvolvedores independentes, que na falta de bons aplicativos oficiais, criavam por eles próprios aplicativos alternativos tão bons, mas tão bons, que a experiência de uso superava e muito aos aplicativos oficiais em plataformas atualizadas (Android e iOS).

“A nossa necessidade será a verdadeira criadora”, teria dito Platão.

Cito em particular dois casos muito peculiares: o Tweet It!, que é um cliente de Twitter tão bom, que só pensar em usar o aplicativo oficial desatualizado seria uma loucura. E o Poki, um cliente alternativo do Pocket, com uma usabilidade tão boa quanto, se não melhor que o original.

Os desenvolvedores desses e de outros aplicativos tinham tanto apreço pela plataforma Windows Mobile que, vendo uma necessidade decorrente da falta de bons aplicativos oficiais, se esforçaram, desenvolveram, ganharam uma graninha (espero que sim), e ajudaram a manter essa plataforma usável por um bom tempo, a despeito do descuidado da própria Microsoft. Eles não queriam que essa plataforma morresse.

Entretanto, mesmo com essas alternativas a serviços populares, há aplicativos para os quais não é possível desenvolver alternativas, principalmente quando lidam com serviços fechados: Uber, Cabify, aplicativos de bancos, etc. Nestes casos, os usuários eram obrigados a conviver com versões antigas, capadas ou bugadas dos apps oficiais, isso quando existiam. Vimos a cada dia notícias de mais serviços abandonando e retirando seus apps da plataforma.

O Windows Phone agora jaz em seu leito, mas pra mim o que fica na memória é a comunidade de desenvolvedores que abraçou a ideia, e tentou tornar a vida dos usuários – e a sua própria – um pouco mais fácil.

Obrigado developers, developers, developers.

Eu sou trouxa

Eu sou trouxa, e não é pouco.Ao longo dos anos tenho pensado em como eu não consigo prejudicar os outros para tirar vantagem, apesar de ver a maior parte da sociedade fazê-lo.

E não falo só dos políticos, que tiram vantagem de sua posição privilegiada para afanar os recursos que deveriam ser retornados à população. Falo no geral.

Uma vez eu decobri que alguém tinha roubado uma tampinha do ventil de um dos pneus do meu carro. O cara devia estar sem, viu meu carro estacionado, foi ali e pegou. Pensei se eu conseguiria fazer o mesmo e tirar a tampinha de outro carro, pra cobrir o meu prejuízo. Até hoje meu pneu está sem a tampinha.

Só de pensar em fazer algo pra tirar vantagem (mediante prejuízo de outros), eu já me reprovo antes de fazer. Se o fizesse, eu nem ia ficar contente com a vantagem. Eu não consigo fazer. Eu fico me colocando no lugar do outro que vai sair prejudicado, e não faço. Eu não dormiria a noite se o fizesse.

Eu me pergunto sempre: como os outros conseguem?

O Mário Sérgio Cortella conta a história de um maratonista que deve ser trouxa como eu.

Meu consolo é que não sou trouxa sozinho. Essa semana, duas pessoas próximas vieram me confessar que tem o mesmo dilema. Uma, inclusive, disse espontaneamente: “como eu sou trouxa!”, logo no início da sua fala.

Uns dizem que é empatia, outros moral, e outros que sou trouxa.

Meu deus, como é bom ser trouxa.

O dilema da privacidade

Quase todos utilizamos de diversos serviços gratuitos: e-mail, mensageiro instantâneo, redes sociais, armazenamento de fotos, e muitos outros (vide GMail, Outlook.com, Google Photos, Onedrive, Google Drive, iCloud, Facebook, Whatsapp, etc). Todavia, é sabido que a gratuidade destes sistemas é falsa, pois, apesar de não dispendermos de dinheiro para utilizá-los, cedemos informação. Essa informação é utilizada pelas empresas que fornecem esses serviços “gratuitos” para seu próprio lucro, bem como manutenção de seus serviços.

O Google, por exemplo, pode utilizar toda a informação cedida em buscas, e-mail, etc para traçar um perfil seu, e exibir os melhores anúncios de produtos e serviços, ou seja, os que mais se direcionam ao seu perfil. Os anunciantes, por sua vez, são quem efetivamente pagam ao Google para anunciar seus produtos.

Assim sendo, diversas gigantes do software possuem hoje detalhados perfis de nosso dia a dia, nossas preferência. Google, Microsoft, Apple, Facebook, e muitas outras tem uma infinidade de dados que podem ser utilizados; cada uma dessas empresas tem, geralmente, uma política de privacidade que versa quando e como esses dados serão utilizados.

Todavia, devemos nos preocupar com toda essa informação armazenada nas mãos de um pequeno grupo de empresas?

O argumento da vigilância governamental/de terceiros

Muitos defendem que não devíamos ceder tanta informação em troca de serviços, pois a concentração de dados nas mãos de uma empresa facilitaria a vigilância governamental desses dados. Escândalos recentes dão conta da colaboração entre empresas e governos.

Todavia, outras correntes afirmam que o cidadão usual e não-criminoso não teria nada a temer pela vigilância desses dados, pois, se não cometeu crime, não será punido pelo conteúdo de seus dados.

Entretanto, é válido notar outro argumento: o de que, na eventualidade de ascensão de um regime autoritário, os governos conseguiriam facilmente espionar e perseguir cidadãos de interesse, simplesmente por suas visões políticas.

Ainda, há os que não temem uma vigilância governamental, mas sim que os dados caiam em mãos de pessoas mal-intencionadas. Já ocorreu, e pode ocorrer de novo. Nesse caso, seria conveniente que dados tão pessoais não ficassem expostos da forma como ficam hoje.

O argumento do uso de dados para lucro de terceiros

Há grupos que defendem que o lucro obtido sobre a exploração de dados dos usuários seria espúrio ou desonesto, e que propagandas deveriam ser direcionadas a pessoas sem levar em conta as suas preferâncias. Também, que a manutenção de um perfil traçando a personalidade de cada usuário seria uma invasão à privacidade, pois cada pessoa tem seus segredos, mesmo que não sejam crimes.

Entretanto é útil notar que as propagandas direcionadas não só obtiveram melhores resultados ao longo da história, mas também são melhor toleradas por quem as vê, visto que são produtos que correspondem aos seus interesses.

O argumento da praticidade

Hoje temos diversas ferramentas para (tentar) garantir nossa privacidade online. Há mensageiros instantâneos como o Signal que utilizam o estado-da-arte de segurança de dados para comunicação. Temos o PGP, que nos permite enviar e-mails assinados digitalmente, e até mesmo criptografá-los. Temos complementos de navegador que impedem trackers ao longo da internet.

Todavia, para cada um desses, é necessário algum esforço de instalação e configuração que não são triviais nem para um usuário habituado com tecnologia, logo, imagine para um usuário comum. Além disso, quando é para comunicação, as duas pontas (emissor e receptor) precisam estar utilizando das mesmas tecnologias.

Sendo assim, a maioria dos usuários não utiliza dessas ferramentas, por não serem práticas (out-of-the-box), e elas acabam sendo utilizadas apenas por pequenos grupos que compartilham desses interesses.

Há alternativas sendo criadas e evoluindo, como o ProntonMail, cuja proposta é adicionar os layers de segurança necessários, sem que o usuário comum sequer saiba disso. Mas ainda são embriões, não são perfeitos, e a resistência à mudança é grande.

O argumento da gratuidade

Sabemos que não há almoço grátis. Se o serviço que utilizamos não exige pagamento, ele explorará nossos dados. Alguns defendem que, afim de garantir nossa privacidade, valeria a pena começarmos a pagar para utilizar esses serviços, mediante garantia de privacidade. Outros dizem que preferem ceder a informação e, assim, poder usar seu dinheiro com coisas que lhe tragam outros benefícios.

Afinal, devemos nos preocupar?

Não há resposta universal. Cada um de nós terá de realizar tal julgamento, pessoalmente. Vale a pena arriscarmos dados pessoais em prol de gratuidade e praticidade? Ou devemos investir tempo configurando ferramentas que protegem nossos dados e não são tão práticas? Mas não será um disperdício de tempo? E se as pessoas com as quais nos comunicamos não tem a mesma sintonia, vale a pena investir nessas tecnologia? Mas e se um dia formos chantageados pela informação que colocamos na nuvem?

Nosso perfil somos nós. Cada um de nós terá de ver o quanto vale, e se queremos nos arriscar a uma exposição que, talvez seja danosa, ou talvez nunca traga diferença alguma.

O compartilhamento de dados entre WhatsApp e Facebook não é coisa nova

Foi feito um alarde essa semana referente ao anúncio do Facebook de que os dados dos usuários de WhatsApp serão compartilhados com a rede social. Há inclusive agora, no WhatsApp, um toggle que permite desabilitar o compartilhamento.

Todavia, esse compartilhamento de dados já era realizado. O toggle para desabilitar, de fato, é novo.

No ano passado, quando eu ainda tinha uma conta de Facebook, o número de telefone associado à minha conta era o mesmo número que utilizo no WhatsApp. Todavia, não tinha app do Facebook no smartphone, tampouco acessava a rede social via browser mobile, nada. Não entrava no facebook de forma alguma no celular. Isso justamente para evitar que a rede social me perguntasse se eu queria fazer o upload dos meus contatos e ver quem eu conhecia. Eu preferia adicionar um a um, e manter a minha lista de contatos “privada”.

A bem da verdade, só utilizava o Facebook no browser do notebook, em casa.

Um colega de trabalho, então, me passou o telefone de uma corretora imobiliária. Adicionei em meu telefone, o WhatsApp viu o número, colocou entre os contatos de WhatsApp, conversei com ela pelo mesmo app.

Ao chegar em casa à noite, entrei no Facebook no notebook, e para minha surpresa, ele exibia na página inicial o banner “Pessoas que talvez você conheça”. A primeira delas era a corretora imobiliária, pessoa que eu conheci no mesmo dia.

Muitos dirão:

“Ah, mas o compartilhamento de dados pode não ter se dado pelo teu WhatsApp, mas pelo smartphone dela. Ela tinha ambos os apps no smartphone dela (Facebook e WhatsApp), ela ‘syncava’ os contatos entre o smartphone e o Facebook, e o Facebook entendeu então que ela te conhecia, e sugeriu para os dois se adicionarem…” – Você espertalhão conhecedor dos paranauês tecnológicos

Ok, tecnicamente possível. Todavia, em minha opinião, o máximo que se deveria fazer era exibir para ELA, no Facebook DELA, que talvez ELA ME conhecesse. Exibir para mim é muita intrusão, pois eu tornei o compartilhamento de meus contatos impráticável (jamais autorizando o upload de meus contatos, e sequer tendo o app do Facebook). Acho, inclusive, que sugerir pessoas que eu conheça é questionável, se jamais permiti o upload de meus contatos pra rede social.

De qualquer forma, privacidade hoje é, na prática, inexistente. Os seus dados vão parar lá, de uma forma ou de outra. Seja pelo seu smartphone, seja pelo do coleguinha.

É o que eu acho.

Obsolescência Programada

Ou: Como as Fabricantes o Forçam a Comprar as Novas Versões Ou: Tática Chaves de Venda de Balões

Quando você compra um eletrônico (como smartphones, tablets ou até notebooks), após um certo tempo, o fabricante geralmente lança atualizações de software que, sabidamente, vão prejudicar o desempenho do seu dispositivo.

Até então ele estava funcionando perfeitamente mas, com a nova versão, torna-se lento, ou às vezes inutilizável. A saída é apenas uma: comprar outro aparelho mais novo que suporte melhor essas novas versões e com desempenho aceitável.

Após algum tempo, lançam novas atualizações para este aparelho novo, que torna-se lento, e assim segue o ciclo. Essa é a famosa Obsolescência Programada.

Todos somos vítimas dela. Eu fui vítima dela quando comprei um iPhone 3GS por exemplo. Excelente aparelho, rápido. Com o tempo, novas atualizações de software surgiram, e hoje o iPhone 3GS jaz em uma gaveta pois, afinal, é impraticável utilizá-lo: é lento, trava.

Por que não deixaram como versão máxima para ele uma versão na qual ele ainda funcionava rapidamente? Para forçar o usuário a comprar outro modelo mais novo.

Isso ocorre também com smartphones Android, Windows Phone, com tablets, computadores, etc. Independe da marca.

Como se proteger? Duas opções:

  1. Pesquise antes de atualizar. Se usuários relatam perda de desempenho, não atualize. Continue na versão antiga.
  2. Recorra a um sistema operacional alternativo. Usuários de Android costumam dar sobrevida a aparelhos aparentemente obsoletos com ROMs alternativas como o Cyanogenmod, por exemplo. Isso mantém o aparelho atualizado, e algumas vezes mais rápido do que ele era de fábrica. Testei isso num Samsung Galaxy S3 e foi impressionante. Para computadores, vale tentar usar uma distribuição linux e salvar a máquina antiga. Eu uso Debian em meu notebook já um tanto antigo e fraco, e é ótimo.

Por que estou escrevendo sobre isso? Na segunda-feira, percebi que a Apple me oferecia gratuitamente uma atualização para meu Mac Mini de 5 anos (modelo de 2010) para seu novíssimo sistema Mac OS X El Capitan.

Há algum tempo atrás, me ofereceram a atualização para o então novíssimo Yosemite, que prejudicou consideravelmente o desempenho de meu computador até então 100% funcional. E na terça, a Apple anuncia os novíssimos preços para seus computadores: cifras astronômicas.

Atualizarei? Provavelmente não. Na verdade, acho que vou tentar regredir para uma versão anterior para obter o funcionamento pleno novamente.

Se atualizasse, ficaria inutilizável, aposto. O que fazer nesse caso? Comprar outro.

O Chaves e o Sr. Madruga desenvolveram um sistema infalível para venda de balões.

  1. O Sr. Madruga vendia um balão.
  2. O Chaves espetava o balão do cliente quando o Sr. Madruga já tivesse o dinheiro no bolso.
  3. Quando o cliente atônito perguntava o que deveria fazer, o Chaves disparava: comprar outro.

Em tempos de crise, convém evitar que seu aparelho funcional torne-se obsoleto. Em tempos de bonança também. Vamos evitar o consumismo desenfreado. Salve seu hardware funcional com software que funciona nele e que lhe atenda.